Urbanisticamente e epidemiologicamente: como o Brasil está fazendo tudo errado

Desde o início da crise sanitária da COVID-19, diversos países ao redor do mundo tem procurado alternativas para diminuir os riscos e a transmissão do vírus. Uma das estratégias mais amplamente adotadas desde o início foi o investimento na bicicleta como modo de transporte. Algumas cidades, como Bogotá e Paris, investiram em ciclovias pop-up, estruturas improvisadas com cones de trânsito para garantir a separação entre ciclistas e o trânsito. A estratégia deu resultado, e hoje, as ruas de Paris se veem tomadas de bicicletas:

Ciclistas em rua no centro de Paris: na cidade-luz, as bicicletas são cada vez mais presentes. Reprodução: france24

A explicação é simples: em um momento em que a orientação é evitar ambientes fechados com aglomerações, a bicicleta se torna uma opção com um risco consideravelmente menor em relação ao transporte público. Sendo assim, estimular e apoiar o uso da bicicleta — e da caminhada — se torna também uma questão de saúde pública, que pode inclusive salvar muitas vidas.

Apesar disso, não é o que se viu no Brasil. Mesmo nas cidades brasileiras com um histórico de apoio ao uso da bicicleta, não houveram iniciativas para expansão emergencial da rede de ciclovias e ciclofaixas, inclusive com muitas dessas estruturas sendo fechadas e tratadas como atividade não essencial. Durante a primeira onda da pandemia de COVID-19, a ciclovia do rio Pinheiros, na capital paulista, foi fechada(1). Algumas cidades, como Niterói, no Rio de Janeiro, chegaram a inclusive fechar seus bicicletários (2).

Além disso, na ordem de reabertura, não é raro de se encontrar cidades que reabriram bares, igrejas e restaurantes — ainda com os índices de contágio muito altos — e mantiveram os parques fechados. Como foi o caso do Rio de Janeiro: atividades como cultos presenciais nem sequer foram suspensas, enquanto espaços como parques, com um risco consideravelmente menor, foram fechados(3)(4).

Como se pode perceber, as cidades brasileiras perderam uma grande oportunidade em reformular seus espaços urbanos, garantindo um uso mais racional e centrado no uso da caminhada e da bicicleta. Além de um problema urbanístico, agora também se trata de um problema epidemiológico, visto que a mobilidade ativa — caminhada e bicicleta — é uma opção bem mais segura do que o transporte público lotado.

Enquanto não tratarmos a mobilidade ativa como prioridade em nossas cidades, seguiremos com engarrafamentos, poluição, e contágios por COVID-19.

Referências:
(1)https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,na-reabertura-de-parques-ciclovia-da-marginal-do-pinheiros-continuara-fechada,70003360156

(2)https://www.facebook.com/NiteroiDeBicicleta/photos/4631500686866432

(3) https://www.facebook.com/PrefeituradoRio/photos/1673678236171650

(4)https://www.facebook.com/eavparquelage/photos/a.115138697355/10159035934587356/

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