Como a caminhabilidade pode garantir uma retomada segura das atividades econômicas

Julho de 2020. Alguns estados brasileiros começam a dar sinais de queda na curva de infecções e mortes por COVID-19. Graças à queda no número de casos e mortes, alguns governos dão os primeiros sinais de flexibilizações: comércios, bares, shoppings e academias em pouco tempo estavam reabertos. Diante da nova normalidade, uma frase se tornou cada vez mais comum para incentivar consumidores a saírem de suas casas: “estamos seguindo todos os protocolos de segurança”. Mas quais protocolos?

O protocolo de segurança de muitas cidades brasileiras

Para alguns comércios, o protocolo de segurança significava o tão conhecido álcool em gel na porta, em um ambiente fechado, com alta circulação de pessoas, muitas das quais usavam máscara de forma incorreta — ou nem sequer usavam.

O “protocolo de segurança” (sic) que virou piada nas redes sociais é de fato ineficaz: as mais recentes evidências científicas mostram que a transmissão do coronavírus se dá primariamente pelo ar em ambientes fechados — muitas vezes por pessoas sem sintomas, e medidas como a higienização de ambientes e medição de temperatura (no pulso!) se mostram, para ser generoso, sem utilidade. Sendo assim, ambientes fechados como shopping centers, academias e bares são o cenário perfeito para a transmissão de COVID-19.

O que poucos lugares ao redor do mundo constataram e investiram, foi que em lugares ao ar livre, ou pelo menos bem ventilados, o risco de contágio é consideravelmente menor do que ambientes fechados. Dessa maneira, a pracinha, o parque, a ciclovia, e mesmo a praia (com baixa ocupação) dão um banho de biossegurança nos lugares a que estamos acostumados a ir para nos divertir, ou resolver assuntos necessários.

Algumas cidades, no entanto, perceberam isso. A partir daí, iniciou-se um grande movimento de reocupação das ruas: as mesas e cadeiras de bares foram para as faixas que outrora eram ocupadas pelos carros. Consumidores que antes estavam acostumados a se aglutinar em claustros, agora encontravam seus amigos em cadeiras e mesas colocadas ao ar livre. Essas cenas se tornaram cada vez mais comuns em cidades como Nova York, que com resultados tão bons, resolveram tornar permanente o outdoor dining:

Em Nova York, bares e comércios ocupam as ruas para reabrir de forma segura e reduzir os riscos da COVID-19 (imagem: amny.com)

Nesse sentido, além de epidemiologistas, urbanistas também reforçam a ideia: sair de ambientes fechados para o ar livre é fundamental. Além dos riscos respiratórios de ambientes fechados durante uma pandemia, por décadas fomos acostumados a usar apenas espaços fechados como shopping centers, automóvel particular, e abandonamos espaços maravilhosos como parques, praças e os centros de nossas cidades.

E isso ainda gera um problema de segurança pública: quanto mais pessoas trocam as praças, a rua, por lugares fechados como condomínios e shopping centers, maior é a sensação de insegurança nesses lugares, contribuindo para que ainda mais pessoas abandonem esses espaços. Jane Jacobs, em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades, definiu este fenômeno como “os olhos da rua”. O raciocínio é simples: quanto mais os espaços da cidade forem ocupados, maior é a sensação de segurança, contribuindo para um ciclo virtuoso: mais pessoas, mais segurança, que atrai mais pessoas.

Apesar de não sabermos quando será segura a retomada das atividades econômicas, temos a oportunidade de não repetir os mesmos erros da reabertura após a primeira onda. Os espaços abertos, junto com os transportes ativos, como a caminhada e a bicicleta, representam a melhor opção de deslocamento e lazer pela cidade. Troque o shopping lotado com álcool em gel na porta pelo parque da sua cidade. :)

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